Filme, “Última parada 174”

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O filme “Ônibus 174”, produzido a partir de um sequestro real de um coletivo da cidade do Rio de Janeiro, traz reflexões importantes sobre as questões sociais. Além de elucidar pontos consideráveis no que se refere a invisibilidade social, aponta também para a falta de políticas públicas para aqueles que estão à margem da sociedade, a atuação do Estado na segurança pública e o despreparo de pessoas envolvidas nesse trabalho, mesmo sendo lançado em 2002, o tema é super atual e fomenta muitos debates.

A personagem principal é um sobrevivente da “Chacina da Candelária” ocorrida há dezessete anos no mesmo palco social, em que vários meninos de rua foram assassinados violentamente. As cenas do “espetáculo real”, são entrecortadas com depoimentos de pessoas que viveram todo o drama, especialistas em assuntos sociais, e pessoas ligadas a trajetória de vida de Sandro, a qual foi marcada por tragédias que teve início na infância, ao presenciar o assassinato da mãe. Os fragmentos de sua história pessoal, apontam para um caminho em que a invisibilidade social se fazia cada vez mais presente.

De uma tentativa de roubo errada e da dimensão que este ato tomou, Sandro ganha uma visibilidade social, nunca antes conquistada, proporcionada pela exploração da mídia televisiva, que determina o que deve ser visível e invisível. Os olhares de toda uma sociedade deram a ele a grande chance de se fazer existir. Assim como maioria invisível que percorre os grandes centros urbanos, Sandro pertencia a massa caracterizada pelos estigmas e indiferença sociais, “jovem, negro e analfabeto”, a que os nossos olhos estão tão acostumados a ignorar.

A invisibilidade do cotidiano só é modificada quando a dinâmica urbana é alterada, vários Sandros transitam pela sociedade, mas tornam-se visíveis à medida em que se transformam em ameaça, à medida em que utilizam a violência como linguagem, como modo de serem ouvidos. Nesses momentos, rompe-se a condição de invisibilidade, pois tiram-nos do nosso automatismo diário.

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Entretanto a condição de visibilidade na sociedade só é possível, à medida em que passa por um reconhecimento da identidade, e quando os indivíduos por meio dos estigmas e da indiferença são negligenciados nessa particularidade, são negados a estes sua condição de sujeitos, de existência. Ao anular a identidade a invisibilidade frente ao um outro se efetiva.

Mais do que transformar o personagem principal em vítima ou bandido, o documentário nos impele, além dos incômodos, angústias que causa, a questionar sobre o lugar de indiferença a que nos colocamos. Mesmo sendo um mecanismo de defesa, “para nos livrar da dor alheia e nos poupar do sofrimento”. É fácil ficar nesse lugar, assim como é fácil também desejarmos que todos os indivíduos que causam dano à engrenagem social sejam eliminados.

A falta de políticas públicas capazes de atingir esse grande contingente de excluídos, impede uma abertura no sistema, um espaço para discorrer sobre as desigualdades sociais, as ideologias, a discriminação. A este contingente destituído de capital social-educação, emprego, ou seja, a riqueza adquirida através das relações sociais e do sentimento de pertencimento ao contexto em que estão inseridos- não resta senão procurar meios para se fazerem vistos, ainda que contrariando a ordem social. A nós os atores sociais, ou expectadores resta “ aprender a conviver com os sandros”, não nos mobilizando, mas cada vez mais mergulhando na inércia social.

FILME COMPLETO

Fonte: https://psicologado.com/resenhas/analise-do-documentario-onibus-174