ENTREVISTA – Um olhar sobre as pessoas em situação de rua

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Entrevista realizada com o Professor Dr. Carlos César Barros da Universidade Estadual de Feira de Santana ao portal PapoPsi.

O fenômeno considerado população em situação de rua (PSR) é denominado pelo Decreto nº 7.053, de 23 de dezembro de 2009,
Parágrafo único – “Grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporária ou como moradia provisória”.

O que se tem feito a essas pessoas, em especial, no interior da Bahia, sobre tudo no campo da psicologia. Visando provocar os diversos setores sociais para a problemática que há anos está na invisibilidade social e é tratada de forma paliativa e nunca com prioridade.

Mesmo com o aumento da representatividade da população em situação de rua, ser potencializada por iniciativas de grupos sociais, ainda não se percebe um direcionamento do governo a uma política de valorização desse movimento.

Tendo esse cenário exposto convidamos o professor Carlos Barros para nos expor sua pesquisa feita no município de Feira de Santana no ano de 2014/2015 com pessoas em situação de rua dentro de uma perspectiva da psicologia social.

PapoPsi: Quais fatores provocaram a realização dessa pesquisa com a população em situação de rua?

A princípio, a secretária de desenvolvimento social da prefeitura de Feira de Santana em parceria com UEFS, solicitou ao professor Eliabe Barbosa Gomes do departamento de filosofia e colaboradores do movimento nacional das pessoas em situação de rua um levantamento da real situação no município. Após essa demanda o professor manteve contato comigo e eu me identifiquei com o projeto uma vez que eu já tive uma experiência na faculdade São Bento em Salvador, onde movimentos nesse sentido eram feitos com frequência e em um desses eu tive a oportunidade de participar e me identifiquei, mas por demandas no próprio curso não deu para conciliar naquele momento onde estava me tornando coordenador do curso de psicologia naquela faculdade. Com isso, de forma inesperada, surgiu essa nova proposta que acabei aceitando com muita satisfação.  Conhecer a história do professor Eliabe no envolvimento com esse projeto, alguns estudantes também participaram e puderam conhecer de perto essa perspectiva social , um trabalho de campo realmente importante.

PapoPsi: Qual o teor da pesquisa? 

Basicamente era a gente tentar entender várias questões; por que eles saiam de casa? Eles usavam drogas e quais os tipos? O que eles esperavam? Tipo de trabalhos eles tinham? Tinham alguma profissão? Tratava-se de um questionário extenso que fazíamos em campo, nos  aproximávamos deles e convidávamos a realizar a pesquisa, em abrigos e nas ruas.

PapoPsi: A partir dessa pesquisa é possível traçar um perfil das pessoas em situação de rua? 

É bem difícil, na verdade, por que os vários textos a respeito das pessoas em situação de rua são bem claros quando o assunto é esse. Por que na verdade o que se verifica é um estereótipo que nos leva a falsas conclusões. Um tópico que se destaca nos textos é que uma das principais características das pessoas em situação de rua é a heterogeneidade. Então você ver várias pessoas, de vários lugares e vários origem, ainda mais em Feira de Santana onde hoje podemos de dizer que é um grande centro, a gente conheceu pessoas do Rio de Janeiro, de Minais Gerais, de outros lugares da Bahia, pessoas que não conseguiam dinheiro e não tinham condições de continuar viajando. Outro aspecto interessante é a pluralidade de religiões. Tinha pessoas que se diziam evangélicas, católicas, espíritas. Tive a oportunidade de entrevista pessoas do México. Pude verificar que muitos têm profissões mas não conseguem se desenvolver. Uma característica muito presente na grande maioria é o fato de terem relações familiares fragilizadas, instáveis. Então essa desestruturação familiar, a falta de emprego e o uso das drogas são fatores correlacionados com essa população. Na tocante às drogas surge o questionamento sobre o real momento em que a pessoa começou a usar as drogas, se a usa antes da situação de rua ou após, para que possa lidar com essa realidade.

PapoPsi: A parti desse contato com a prefeitura, foi possível  verificar uma política pública de integração dessas pessoas?

A prefeitura tem um serviço de apoio à abrigos, inclusive tínhamos dois abrigo funcionando no tempo da pesquisa. Há também os Centros de Referências em Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados em Assistência Social (CREAS). Podemos dizer que a implementação desses centros nos municípios são uma política pública assistencialista. Dentro dos CREAS há um centro que oferece atenção exclusiva à pessoas em situação de rua.  Então tem esse centro em Feira de Santana, onde  tivemos a oportunidade de ir e entrevistar pessoas. Com isso pude elaborar junto com o professor Eliabe a devolutiva ao órgão público, nossa pesquisa foi exposta e organizada pela secretaria de desenvolvimento social, estamos nos planejando para tentar trazer esse debate para o ambiente acadêmico. Fizemos uma apresentação pública para servi de parâmetros nas políticas de atenção às pessoas em situação de rua.

PapoPsi: Qual a conclusão a respeito desse trabalho? 

Constatamos que há uma necessidade de políticas mais enfáticas e objetivas em direção a essas pessoas, isso foi bem discutido na apresentação. O centro de atenção, apesar de ter uma estrutura, ainda falta uma equipe humanizada e qualificada. O movimento quer o empoderamento das pessoas em situação de rua. Não se verificou uma equipe com escuta qualificada para tal circunstância.

PapoPsi: Foi percebido um desejo, uma vontade dos moradores de rua em sair da situação que se encontravam?

Sim, as pessoas que diziam não eram a minoria. A maioria dizia, sim! Outros ainda eram mais enfáticos e diziam, ” quem não gostaria?” Então eles gostariam de sair, projetavam emprego, moradia e uma vida tranquila. Quando perguntados sobre seus respectivos sonhos e o que eles achavam que precisavam para sair da situação de rua, eles nos diziam que queriam uma casa, emprego, ter filhos, se relacionar bem com a família, comer mais de uma vez por dia. Então a alimentação deles é muita complicada, a higiene é muito complicada, muitos vezes é uma situação humilhante. O acesso ao serviço público e às pessoas ainda é uma barreira sustentada pelo preconceito. Eles tem muito a nos ensina, muitas vezes pensamos que quem deve mudar são eles, mas nunca paramos para pensar o que nós devemos mudar para que eles possam se sentir capazes de mudar. Então profissionais de saúde, educação, profissionais do direito, psicologia e assistência social infelizmente ainda não sabem trabalhar com essa população.




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Edição e publicação
Por: Osmar Ramos Graduando em psicologia